3 de abr de 2013

June 15


Capítulo 26.


Levantei exatamente às seis e meia da manhã, como em todos os dias – tirando os finais de semana. Tomei café com Carol e ficamos vendo o noticiário. Percebi que já estava atrasada e corri para não perder o metrô. Cheguei ao trabalho 10 minutos atrasada, por sorte a minha chefe não tem mau humor e ficou no meu lugar por alguns instantes. Carol conseguiu esse emprego para mim, em uma agência de viagens. Estou gostando muito, afinal nesses lugares sempre conhecemos pessoas diferentes e cheias de vontade de viver, viajar e querer que os problemas se danem. 

O tempo passou voando e já faz três meses que estou em Bolton. Saí da casa dos pais de Carol e fui dividir apartamento com ela. Há dois meses estou trabalhando neste lugar, está sendo ótimo para a minha saúde mental. Porém, hoje alguma coisa me dizia que não seria um dia qualquer. Estava concentrada, digitando algumas coisas pedidas pela minha chefe, quando uma senhora sentou-se em minha frente. Virei-me para olhá-la e ela sorriu, muito simpática. Sorri de volta e fiquei pensando que a conhecia de algum lugar.
 

- Bom dia, como vai? – perguntei exatamente como fui instruída a fazer.
 
- Bom dia, vou muito bem, e você? – respondeu sorrindo.
 
- Tudo bem também. Em que posso ajudá-la?
 
- Quero marcar uma passagem para Londres, oh Deus, estou sentindo tanta falta do meu filho. – suspirou e eu quase caí da cadeira quando olhei para os seus olhos. Eram os olhos de
 Thur. Eu sabia que a conhecia de algum lugar! Claro! É sua mãe! Oh meu Deus. Acho que as minhas mãos estavam congeladas. 
- Desculpe-me, mas a senhora é mãe do
 Thur? – peguntei de uma vez, nem me importando se aquilo parecia inoportuno. Ela arqueou as sobrancelhas e riu baixo. 
- Sim. – respondeu assentindo e eu senti o coração quase passar pela garganta. – Você é fã dele?
 
- Na... Sou! – falei subitamente, ainda em estado de choque.
 

Tentei parecer natural e conversar com ela normalmente, marquei sua passagem e a senhora
 Aguiar disse mais uma vez que não via a hora de ver o filho. Arthur. Quase falei para ela que me sentia da mesma forma por ele, mas ainda bem que ainda tenho alguns momentos de auto controle. Aquele definitivamente foi um dia cheio. Nunca marquei tantas passagens. 

Voltei para casa meia hora depois do expediente e Carol estava na cozinha, preparando macarrão ao molho branco.
 

- Nossa, essa “chiqueza” toda só pra nós duas? – perguntei tirando a tampa de uma das panelas e sentindo aquele cheiro maravilhoso.
 
- Na verdade, não. Alguém vem jantar aqui. – respondeu em um tom misterioso e eu bati palmas.
 
- Adoro mistério. – brinquei e ela riu. Fui para o meu quarto e peguei uma toalha, precisava de um banho urgente. Depois fui para o banheiro e nem vi o tempo passar debaixo do chuveiro. Quando saí, percebi que o espelho estava embaçado de tanto tempo que estava com o chuveiro ligado na água quente. Voltei para o meu quarto e me troquei, coloquei um simples vestidinho e apenas penteei o cabelo. Saí de lá e fui para a sala.
 

Vi alguém estranho no sofá, devia ser o convidado. “O” mesmo, já que não tinha longos cabelos e usava roupa masculina. Carol saiu da cozinha e eu olhei dela para o rapaz, apreensiva.
 

- Mike... – ela chamou e ele olhou para onde estávamos. Eu não podia acreditar no que via. Era Mike Thompson, o garoto que tirou a minha virgindade e de quem eu engravidei aos 16 anos. Entrei em transe e olhei para Carol apavorada. Quando percebi, ele já havia se levantado e estávamos frente a frente. Seu rosto não mudou nada, agora tinha uma expressão mais adulta, porém parecia ainda ser aquele mesmo menino do colegial.
 
- Oi. – falou timidamente. – É bom te ver.
 
- Oi. – sussurrei, ainda não acreditando que aquilo estava acontecendo. Nem consegui responder um “igualmente”, só sabia que queria matar Carol.
 
- Bom, vamos jantar? – ela quebrou o silêncio constrangedor e eu apenas concordei, seguindo-os.
 

Depois que jantamos – e aquele havia sido um jantar completamente constrangedor, porque eu não conseguia falar nada –, Carol nos deixou a sós na sala, dizendo que ia olhar uma coisa em seu computador, o que eu sei que era conversa fiada. Sentei na poltrona, justamente para não ter que dividir o sofá com Mike. Evitei olhá-lo, mantive os olhos concentrados na televisão, mas nem prestava realmente atenção no que passava.
 

- Eu quero conversar com você. – o ouvi dizer e o olhei bruscamente.
 
- Sobre o que? – perguntei ríspida, qual é, a gente não se suportava antigamente.
 
- Sobre o nosso filho. – franziu a testa e eu engoli seco.
 
- Como é? – estranhei que ele soubesse daquilo. Ah, eu mato Carol, mil vezes.
 
- Carol me contou que você foi embora grávida. – continuou e eu o olhava imóvel.
 
- É, mas eu perdi. – dei de ombros e cocei a testa, nervosa.
 
- Eu sinto muito. Por isso e por não ter estado presente.
 
- Mike, eu não entendo por que estamos falando disso. Já passou e qual é? Você quer dar uma de bonzinho que assumiria tudo? Você nem me procurou depois daquela festa. – explodi e ele ouviu tudo atento, mas não disfarçou os olhos arregalados ao escutar a última parte.
 
- Como não? – perguntou com uma expressão de estranheza. – Eu fui à sua casa praticamente duas vezes por semana.
 
- Então você procurou a casa errada, ou eu tenho um clone...
 
- Não, a sua mãe que sempre atendia a porta e dizia que você não estava. Deixei meu telefone para que me ligasse quando chegasse e isso nunca aconteceu. – falou sincero e me contive. – Você sumiu do colégio... Fiquei muito preocupado, sentindo uma culpa surreal por... Você sabe. – concluiu tímido e eu apenas arqueei as sobrancelhas, digerindo suas informações.
 
- Eu nunca soube disso. – falei apoiando os cotovelos nos joelhos e levando as mãos à cabeça. Foi como se a minha mãe tivesse feito tudo acontecer. Como se planejasse que eu realmente sumisse. Se eu soubesse que Mike tinha me procurado, talvez nunca tivesse ido a Londres. Não que eu quisesse alguma coisa com ele sã, mas saber que não fui apenas um brinquedo em suas mãos realmente mudaria tudo.
 
- É como você já disse, já passou. Mas eu queria deixar tudo em pratos limpos. Encontrei com Carol há alguns meses atrás, foi quando soube de tudo e ela me garantiu que você nunca soube que eu tinha ido atrás de você em sua casa.
 

Ficamos algum tempo em silêncio, até que Carol aparecesse novamente. Ela se sentou ao lado de Mike e engatou assuntos dispersos. Contei para ele sobre a vida em Londres – claro que omiti o fato de ser prostituta – e ele disse que pensava em se mudar para lá, quando se formasse em arquitetura. Logo foi embora e me deu seu telefone, para que saíssemos depois. Eu não acho que ligaria, foi bom saber que ele se preocupou comigo, mas daí para virarmos amigos já era um pouco demais. Eu não conseguia me acostumar com a ideia de que ele era pai do filho que eu havia perdido. Aquilo tudo era muito estranho para mim. Conversei com Carol sobre quase ter me matado de susto e que quando fosse fazer mais surpresas como essa, me avisasse, porque eu podia ter perdido o bebê ali mesmo. Tudo com uma pitada de exagero, lógico.
 

Devagar tudo ia sendo consertado. Falei com Mike depois de anos, revi os Former e só o que faltava mesmo era ter uma relação mais amigável com os meus pais. O que não era fácil, mas devagar estávamos ficando mais dóceis. Eu tenho todos os motivos do mundo para querê-los o mais distante de mim, mas mesmo assim estava fazendo o possível para aproximá-los. Tudo foi ficando melhor quando souberam que não cheguei a ter o bebê. É egoísta, mas eles são assim. Não contei que esperava um filho novamente, pois sabia o impacto que isso causaria neles, mesmo não tendo nenhum direito de opinar no que acontecia comigo. Apesar de tudo estar indo razoavelmente bem, uma coisa me arrancou o sono: eu não conseguia parar de lembrar de ter conhecido Kathy
 [n/a: sei que é o nome da mãe do Danny, mas usem a imaginação, ok? Haha], mãe de Thur. É muita coincidência. Bolton tem milhões de agências de viagens. Ela tinha que ir logo naquela? 

Levantei da cama e fui até o computador, que ficava no fim do corredor. Carol já tinha ido deitar, afinal tínhamos que acordar cedo. Tentei fazer o mínimo barulho possível. Esperei tudo ser iniciado e cliquei no navegador. Entrei em meu e-mail, depois de séculos. Senti um frio na barriga e um nó na garganta ao ver a caixa de entrada praticamente lotada de e-mails de
 Mel. Abri um por um. Em todos, ela pedia notícias e percebi que me escrevia quase todos os dias, desde que fui embora. Segurei-me para não responder. Mesmo vendo tudo melhorar, ainda não estava preparada para aparecer. Quando fui passando as páginas, notei que havia um e-mail de Mica anexado. Respirei fundo e abri. Ali estavam TODAS as nossas fotos no Brasil. Todas, uma por uma. Inclusive as de Chay todo pintado. Ri sozinha ao ver tudo aquilo. Senti algumas lágrimas teimosas escorrerem e as enxuguei, abrindo cada imagem. Lembrei do quanto havia me divertido, do quanto estava feliz naqueles dias. Senti as pernas fraquejarem e o coração quase saltar do peito ao ver uma foto com Thur no pub que fomos em Angra dos Reis. Eu segurava seu copo de caipirinha e ele beijava meu rosto. É incrível como parecem ser duas Luas diferentes. 

Como eu sinto falta dele!
 

Fiquei olhando fixamente para sua mão em minha cintura e pareci sentir seu toque. Tudo estava tão triste sem
 Thur. Já não importava o que ele tinha feito para mim no último dia no Brasil, parece que aquilo tinha sido apagado, mas eu sabia que não havia lugar no mundo para nós dois juntos. O que passou, passou. E eu guardava aqueles momentos com muito carinho. Ri alto – percebendo depois o barulho que tinha feito – ao ver a nossa foto erguendo os copos de caipirinha. Quanta falta eu sentia dos outros três também. Foi como se ao olhar aquela foto, vários pedaços do meu coração partido tivessem voltado e colado para sempre. E isso era bom, mesmo sabendo que ao desligar o computador voltaria a sentir o mesmo vazio. Se algumas lágrimas já escorriam, agora eu já soluçava ao ver o que Mica escreveu no corpo de mensagem: 

“Esperamos ansiosamente o dia em que você estará com a cabeça no lugar. Saiba que quando voltar, terão três pares de braços abertos, loucos para te abraçar. Você faz falta, cada dia mais. Estaremos aqui, sempre. 

Mica,
 Chay e Harry.” 



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