Capítulo Quatro Parte 1
Fevereiro, 2006
Chovia. Há quase três meses chovia sem parar. As nuvens eternas moravam
nos olhos de Lua, e continuariam ali para sempre. Londres estava sempre
nublada, mas não fora ali que começara, e sim na Califórnia. Na ensolarada
Califórnia. Ironia?
Ironia era lhe tirarem todos que amavam. Não, era apenas trágico. Uma
tragédia, realmente. “Todos lamentamos sua perda, Lu” lhe diziam “mas você não
pode ficar assim para sempre”. Ora, vejam só, pelo o que parece, ela podia sim.
Não ligava para mais nada. Levantou-se da cama, cansada de ficar ali.
Thur se mexeu ao seu lado, acordando. Lu olhou para o relógio, não tendo a
mínima noção da hora. Eram apenas seis da manhã. De que importava?
Caminhou, silenciosamente, até o único quarto que lhe interessava.
Suspirou ao entrar, tudo continuava igual: completamente morto, mas ainda
assim, trazia uma grande onda de alívio. Tudo ali a lembrava de Stella. A
pequena cama, as paredes cor de rosa, os quadros infantis e as estrelas que enfeitavam
o teto. Os bichinhos de pelúcia na estante sorriam diabolicamente e a caixinha
de música, na mesa, parecia tocar a todo tempo.
Tudo estava no exato lugar há mais ou menos quatro meses, quando Lua e
Stella deixaram Londres, sem saber que este quarto nunca mais seria habitado.
Para falar a verdade, ninguém nem ao menos tinha limpado o quarto, Lu não
deixara, não queria que o cheiro da filha sumisse.
Ela abriu o armário, vendo todas as roupas arrumadas. Lu colocara as
roupas que estavam na mala de volta no armário, aquilo a fazia sentir melhor,
como se Stella fosse precisar delas alguma vez. Procurando a fundo, encontrou
um pequeno cobertor, que usava para enrolar a filha quando era apenas um bebê.
Pegou o cobertor e o abraçou, cheirando-o. Há muito tempo tinha sido lavado e
guardado, mas Lu preferia pensar que tinha rastros de Stella ali.
Sentando-se em uma cadeira de balanço, ainda segurando o pedaço de pano,
começou a cantarolar a música que normalmente tocava no quarto, “Além do
arco-íris”, do Mágico de Oz. Era uma música bonita, percebeu, gostava da
melodia.
Stella gostava, ela gostava de qualquer música.
Dezembro, 2004
A pequena usava um vestido rosa e uma fita vermelha envolvendo a
cintura, fazendo com que parecesse um presente. Seu cabelo estava um pouco
abaixo do queixo, deixando seu rosto com um formato redondo, que lhe caía bem.
As bochechas rosadas eram enormes, ela parecia um anjo. Um rosto que, no
momento estava molhado e inchado devido às lágrimas
- Vamos, Stell, pare de chorar. – Lua dizia, enquanto tentava tirar o
vestido da filha, para colocá-la em uma camisola – Se não se comportar, Papai
Noel não vai lhe deixar nenhum presente. – Alertou-a.
- Mas eu não quero dormir, mamãe... – Ela implorava – Quero ficar
acordada!
- Nada disso. – Falou cansada – Já passou da hora, querida. Quanto mais
cedo você dormir, mais rápido vai acordar amanhã, então poderá abrir todos seus
presentes.
Vencida pelo sono, a menina deixou a mãe colocá-la em um pijama e
deitá-la. Mesmo sendo apenas seu terceiro natal, ela sabia bem que no dia
seguinte, milhões de presentes estariam a esperando debaixo da árvore, no
primeiro andar. Papai Noel os deixaria lá enquanto ela dormia, e em troca
comeria os biscoitos que ela havia preparado com sua avó paterna e sua mãe. Os
avós vieram do interior para passar o Natal, vovô havia lhe contado que a daria
mais um presente se ela se comportasse bem. Esse era o único motivo para estar
indo dormir.
- Mamãe... – Chamou – Canta uma música para mim? – Quando a mãe começou
a cantar “Brilha, brilha estrelinha”, ela a interrompeu novamente – Essa não,
outra! Canta a da caixinha. – Pediu, já que só conhecia a melodia e não a
letra.
Lua demorou para conseguir se lembrar da letra. Foi até a caixinha,
rodando-a e colocando-a para tocar a parte instrumental. Lentamente, começou a
sussurrar a parte da música que sabia.
- Somewhere over the rainbow, blue birds fly and
the dreams that you dream of, dreams really do come true* - Murmurou, até perceber que Stella já estava dormindo.
Deu um beijo na cabeça da filha, deixando-a dormir.
*
Em algum lugar depois do arco-íris, pássaros azuis voam e os sonhos que você
sonhou, sonhos realmente se tornam realidade.
Fevereiro, 2006
Lua murmurava a música, como se ainda cantasse para Stella. Balançava a cadeira
para frente para trás, enquanto segurava o cobertor em seus braços, como se
tivesse um recém-nascido ali. O movimento era reconfortante, porém apenas a
iludia. Enquanto se balançava, as lágrimas não apareciam. Enquanto deixava se
envolver por lembranças, não sentia dor.
Podia ser passado, poderia nunca voltar, ser uma ilusão, mas qualquer
coisa era melhor do que a realidade. Mesmo que significasse perder a sanidade.
Continuou ali, movendo-se para frente e para trás, cantarolando. Assim os
problemas desapareciam.
Sentiu os raios solares esquentarem seu braço, mostrando que já havia
amanhecido. Há quanto tempo esteve ali? Talvez horas, talvez meses. Pelo canto
dos olhos, percebeu que estava sendo observada. Queria pedir a ele que fosse
embora, mas não conseguia parar de murmurar a música. Suspirou de alívio ao
perceber que estava sozinha novamente, não queria ninguém a perseguindo.
Ao lado da porta, Thur não quis que as lembranças o impedissem de
chorar, pelo contrário, as lágrimas caíam. Podia ouvir Lua murmurar “Somewhere
over the rainbow” em um ritmo lento e torturante. Espiou-a por um segundo, o
suficiente para entender o que ela estava fazendo, fingindo que balançava um
bebê.
Sua dor era imensa, a culpa por ter causado o acidente de Stella o perseguia
todos os dias, mas nada era pior que encarar Lua. Ela não havia perdido apenas
a filha, havia perdido a si mesma. Era apenas um fantasma, que caminhava pela
casa sem objetivo, que ia do quarto da filha para o próprio quarto. Tinha que
obrigá-la a tomar banho e a comer, senão ficaria parada para sempre. Estava tão
magra que todos seus ossos estavam visíveis, seus cabelos estavam secos,
precisavam ser cortados, sua pele estava pálida e morta. Pelo menos ela
respirava.
No primeiro mês após a morte de Stella, Lu tentara se juntar à filha de
todas as formas possíveis. Tomou vários comprimidos, bateu o carro, parou de
comer. Até o dia em que Thur a viu segurando uma faca. Ele conseguira impedir,
a sacudiu, tentando fazer com que ela voltasse a si, porém Lu apenas chorava e
depois o mandou se afastar, para não tocá-la. Thur o fez, pois via em seus
olhos que ela o culpava e que ele seria a última pessoa de quem ela aceitaria
ajuda. Ele tirou os objetos perigosos da casa, escondeu, colocou grades nas
janelas e jogou fora todos os medicamentos, qualquer prato ou copo de vidro foi
substituído por um de plástico, que não teria como feri-la. A casa estava à
prova de suicídios, e logo Lua se esqueceu de tentar se matar, apenas se
desligou do mundo por completo.
Às vezes, ela ia para o quarto deles e dormia ao seu lado, porém nunca
mantinha contato físico. Outras, ela ficava no quarto de Stella, dormindo lá,
não saía durante todo o dia. Uma vez, Thur tentara levá-la no colo, mas ela se
desesperou, mandou que a largasse. E o que poderia fazer? Cada dia se afastava
mais, deixando-a em seu mundo, mantendo contato para verificar se continuava
viva, nada mais.
Não sabia mais o que era conversar com a esposa, nem olhares eles
trocavam. E aquilo estava o matando. Queria sua Lu de volta. Queria Stella de
volta. Queria sua felicidade.
Autora:Juuh
Aguiar

Faz eles se assertarem. Tá muito depremente to chorando até agora :,(
ResponderExcluirPosta +++++++
muito triste
ResponderExcluirme emocionei
ResponderExcluir++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
ResponderExcluirtadinha da Lu e do Thur
ResponderExcluirDuda
maaaaaaaaaaaaaaaais pf
ResponderExcluirposta mais
ResponderExcluirass:Sophia
to chorandooo
ResponderExcluirGente que triste..; faz tudo ficar bem de novo!!
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