2 de jan de 2013

{FIC} Falsa Lua-de-Mel



1º Capítulo de 'Falsa Lua-de-Mel'
Estranho!
 


Lua Blanco fingiu estar tudo bem enquanto colocava sua frasqueira na cadeira ao lado da cama e se dirigia à porta fechada do banheiro. Normalmente seria uma surpresa deliciosa, mas hoje, depois de tantos contratempos, encontrar um desconhecido em seu chuveiro foi a gota d'água.

— Olá! — chamou em voz alta, sem obter resposta, exceto pelo som de água caindo.

Correu um olhar pelo quarto, decorado com móveis rústicos, mas elegantes, pela roupa de cama macia e delicada e pelos vários travesseiros acomodados sobre ela. Exatamente como pedira para sua lua-de-mel com Pedro.

Lembrou-se, amargurada, de que estava sozinha em sua própria lua-de-mel, e já chorara tanto no avião que prometera que não iria mais sentir pena de si mesma. Isso, porém, foi depois de ter sido abandonada no altar diante de duzentos
convidados.

Sentiu-se no fundo do poço quando após a aterrissagem no terreno irregular das Sierras em meio a uma terrível nevasca, recebeu a notícia de que sua bagagem havia ficado em San Francisco.
A tempestade piorara tanto, que o jipe que a conduzia para o recluso e totalmente equipado chalé à beira do lago, teve dificuldade em manter-se na estrada.

Tentando distrair-se do trajeto acidentado, pegou o palm-top para escrever em seu diário. Ali estava sua vida: esperanças, sonhos, frustrações, tudo. Seu último registro, ainda no avião, fora "chega de fracassos". Seria difícil, pois tinha tendência a tomar decisões erradas, então acrescentou: "e acima de tudo, chega de homens".

Ser a caçula de uma grande família fazia com que chamasse muito a atenção. Mas mesmo com seus irmãos mais velhos vigiando todos os seus passos, Lua era atraída por problemas assim como uma mariposa é atraída pela luz. Sua mãe explicara de uma forma mais simples: ela se interessava pelo tipo errado de empregos, de amigos e, principalmente, de homens. Por isso fora abandonada no altar três vezes, eliminando mais uma chance de se casar e dar-lhe netos.

O motorista entrou numa estrada íngreme ladeada por pinheiros que, de tão cobertos de neve, pareciam fantasmas gigantes balançando ao vento. Quanto mais subiam, mais assustador se tornava o declive atrás deles. Um misto de azul, salmão e roxo coloria a parede de granito das Sierras em meio à neve e à noite que caía.
Finalmente, chegaram ao elegante chalé. Havia um belo lago atrás dele, que a subida e as árvores impediam de ser visto de longe.

— Chegamos!

O motorista se inclinou à sua frente e abriu a porta, sem se dar ao trabalho de sair e dar a volta. Lua não o culpou: já era quase noite e havia, no mínimo, meio metro de neve no chão.
Carregando a frasqueira como sua única bagagem, caminhou com grande dificuldade até a porta de entrada, arruinando suas botas novas de camurça. Admirou-se como a noite caíra rápido, deixando toda área às escuras. Quando levantou a mão para bater à porta, uma forte rajada de vento quase a derrubou. O vento penetrava, com seus dedos gélidos, o fino suéter de cashmere, e a neve a molhava da cabeça aos pés.
Ninguém respondeu à segunda, e desesperada, batida na porta, o que, por instantes, a fez imaginar se não estava em algum reality show.

A qualquer momento o diretor gritaria "Corta!", e então Pedro entraria com uma equipe de televisão e ambos ririam da situação. Mas não havia câmera, nem Pedro rindo ou nada parecido. Só a neve batendo em seu rosto, fazendo com que os olhos lacrimejassem, os lábios ressecassem e com que sentisse arrepios de frio por todo o corpo.

Deixando os bons modos de lado, abriu a porta da frente, que estava destrancada, e maravilhou-se com o interior da casa. Deu um passo em direção ao saguão de entrada, examinando o pé direito que se estendia até o segundo andar.
Havia um espelho emoldurado em madeira com uma pequena luminária de cada lado, o que dava a sala e ao brilhante chão amadeirado uma luz suave e aconchegante, contrastando com o ar gelado que sentia ao seu redor.

— Olá! — chamou, enquanto dentava sem sucesso, sacudir a neve de suas roupas molhadas. Não adiantou nada, pois a maior parte já havia derretido, deixando-a ainda mais encharcada e desolada.
Agarrando-se à frasqueira, que continha apenas sua maquiagem e duas peças de lingerie para a noite de núpcias, caminhou em direção à escadaria de madeira que, numa curva, desaparecia no segundo piso.

Arandelas iluminavam o corredor o suficiente para que ainda se visse a iluminação externa.
No entanto, ninguém tinha aparecido para recebê-la, e nem ela ouviu som algum. Sua coragem havia se dissipado e não gostava mais da idéia de estar sozinha naquele lugar.

— Olá! — tentou mais uma vez.

Não sabia qual era o processo de check-in, mas não deixou de pensar que a tempestade talvez tivesse afugentado os funcionários, que estariam agora em suas casas, na minúscula cidade vizinha chamada Sunshine, com sua única rua bloqueada pela neve. Provavelmente haviam deixado a porta destrancada para os hóspedes, sem saber que ela estaria sozinha... graças à Pedro. Sabia que a suíte nupcial ficava no segundo piso. Segurou-se no corrimão e começou a subir os degraus. Chamou novamente ao chegar ao topo da escada, parando antes para tomar fôlego

Foi então que ouviu algo — água corrente —, finalmente uma prova de que havia alguém naquele lugar! Seguiu o som, passou por três portas à sua direita, quartos provavelmente. As paredes do corredor tinham fotografias de cowboys, carroças e antigas cidades da época da mineração. Parou no final do corredor, em frente a uma porta dupla de madeira.

Torcendo para que fosse a suíte nupcial, abriu as portas e entrou no quarto. Viu a cama de madeira entalhada, tão alta que precisaria de um banquinho para subir nela. A roupa de cama era branca com almofadas de pele de urso e parecia tão confortável que Lua quase se jogou nela. Um armário e cômoda, feitos também em madeira de pinho, completavam o conjunto. O teto era de vigas aparentes, um verdadeiro trabalho de arte em marcenaria.

A lareira de pedra e as janelas do chão ao teto, davam um fino acabamento ao quarto, e revelavam que a noite tinha de fato chegado.
Sobre unia cadeira estava a cesta de acessórios eróticos para o casal em lua-de-mel: pinturas para o corpo em várias cores, um pacote de lingerie comestível e livros sobre os prazeres da terapia da massagem e do toque.

A cesta continha ainda outros itens: loção corporal, óleo para banho, um vibrador rosa-neon novinho em folha, cujo horrível formato curvo só vira uma vez. Pegou-o, imaginando os projetistas daquele objeto sentados a uma mesa discutindo sobre o ângulo da curvatura.
Deu-se conta de que a água do chuveiro ainda corria, o que era estranho. Seria a camareira lá dentro? Viu um amontoado de roupas molhadas no chão. Agachou-se junto à pilha e examinou-a com cuidado, tentando adivinhar quem estava em seu chuveiro.

Uma calça jeans, que pela altura das pernas, pertencia a alguém Pouo mais alto que eu e magro. Ao lado da calça, uma camiseta branca básica e uma camisa de linho azul-clara, ambas com um perfume tão bom que se Lua não tivesse riscado os homens de sua vida, teria pressionado o rosto contra elas e inalado o aroma. Mas tinha decidido, até registrara em seu diário, logo, não havia volta.
Estranho, não havia roupas de baixo. Intrigada, levantou-se e bateu à porta do banheiro. Quem quer que fosse, tinha o rádio ligado.

O locutor anunciava a tempestade do século, o que não era nada bom. Quando as palavras "não saiam de casa" e "façam seus estoques, porque esta é de lascar" chegaram a seus ouvidos, não agüentou e abriu a porta com cuidado.
O banheiro era decorado com o mesmo esmero que o restante do chalé: desde o espelho com moldura de madeira, ao belíssimo mármore da pia, passando pela poltrona estofada e os puxadores de bronze. Viu outra cesta de acessórios, repleta de outros itens. Olhou para o vibrador que ainda segurava e pensou, do que mais precisava? Um noivo, talvez? Que pena que a cesta não trazia um de brinde.
O box do chuveiro tomava um dos cantos do cômodo e seu vidro jateado, quase nada escondia do homem alto, atlético e nu dentro dele.

De costas para ela, a água caía sobre a cabeça e os ombros, massageando-lhe o corpo. Que costas! Fortes, com ombros largos e bem delineados, tronco esguio e um bronzeado suave que desaparecia nos quadris estreitos. Tinha um traseiro de dar água na boca.
Água e espuma escorriam por aquele corpo glorioso, e os deuses, talvez para darem um pouco de alegria ao desastroso dia que ela tivera, fizeram com que o sabonete caísse no chão. Sem perceber que estava sendo observado, o estranho baixou-se sem cerimônia para pegar o objeto caído. Todos os músculos se flexionaram quando ele se curvou, pernas levemente afastadas, dando uma visão perfeita de seu...

Lua levantou a mão e abanou o rosto. Ficou ali paralisada, tristeza e cansaço esquecidos enquanto seus olhos se fixavam naquelas coxas bem definidas e no que havia entre elas.
De repente ele se virou e a viu através do vidro. Atônito, escancarou a porta do box, fazendo com que vapor e gotas de água invadissem o ambiente e fulminou-a com o olhar.

— Que diabos está fazendo aqui? — vociferou.
— Eu... — Lua sentiu que seu cérebro a abandonava por completo. Os olhos dele pousaram no vibrador rosa-neon que ela tinha nas mãos.
— Dê o fora daqui! — ele esbravejou, e ela concordou plenamente.
Largou o vibrador, e saiu correndo, batendo a porta, numa tentativa de ganhar alguns segundos de vantagem. Passou pelo quarto, pulando a pilha de roupas no chão, tentando se mover o mais rápido que suas botas molhadas permitiam... O que não era muito.
Nesse momento a porta do banheiro foi aberta e o homem surgiu na soleira. Vinha atrás dela e depressa. Ela deu um grito e acelerou, pensando que jamais conseguiria sair dali tão rápido, nem que fosse para salvar a própria vida.
— Espere um pouco! — exclamou ele, numa voz grave. — Quem é você?

Continua..

Creditos: UR

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