6 de jan de 2013

{FIC} Falsa Lua-de-Mel


7º e 8º Capitulos de Falsa Lua-de-Mel
Susto!



— Está bem... — Suspirou ele e lançou um olhar esperançoso para a frasqueira de Lua — Você, por acaso, não tem comida nessa sua malinha, tem?
— Não, mas Micael Me trouxe um chocolate quente.
— Chocolate quente? Ótimo! — Com um último toque na base do pescoço de Lua, ele pegou a caneca e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.
Ela respirou profunda e lentamente e aconchegou-se no sofá. Ficou observando as chamas dançando na lareira, sentindo que todo o tormento daquele dia começava a vencê-la, fazendo com que suas pálpebras pesassem como chumbo.

Relaxar trouxe com clareza todos os eventos do dia de volta à sua mente, começando pelo fato de ter sido abandonada no altar. Sua capacidade de percepção devia estar falhando, pois não notara nada estranho nos meses anteriores.

Conhecera Pedro no trabalho. Ele era investidor de uma das empresas que sua administradora gerenciava e estava em visita em seu escritório quando parou em seu cubículo para cumprimentá-la. Tirando-se o hábito irritante de murmurar canções de Elvis Presley nos momentos mais inoportunos — quando estavam fazendo amor, por exemplo —, Pedro tinha uma sofisticação suave que ela não conseguiu resistir, mesmo sabendo que ele não devia ser levado a sério. Encantada, deixou-se levar, sem compreender o motivo pelo qual ele também correspondia a seus sentimentos. Mas tudo o que ele havia lhe dito, mesmo aquelas três palavras: "Eu te amo", tinham se transformado numa mentira.

E ali estava ela, sozinha. Olhou à sua volta, para aqueles cantos escuros e sombrios, procurando se convencer de que estava bem. Começou a relaxar, até que...
CRAC!
Aquele estampido fez com que ela desse um salto do sofá, caindo no chão, olhos arregalados, o coração martelando de encontro às suas costelas, enquanto varria os olhos pelo cômodo, tentando descobrir de onde viera o barulho.

Era apenas a madeira estalando na lareira. Rindo de si mesma, voltou para o sofá e tentou relaxar novamente, fechando os olhos e acalmando a respiração. Estava tudo bem, tudo iria dar certo...
Um leve rangido fez com que se levantasse de um pulo. Viu as maçanetas da porta girando.

— Quem... quem está aí? — Não conseguiu esconder o tremor em sua voz.
A porta se abriu lentamente, revelando o grande breu em que se encontrava o saguão.
— Arthur? — perguntou, sentindo o coração na garganta.— Não tem graça!
Uma mulher baixa e loira surgiu.
— Oh, desculpe. Acordei você?
— Não — mentiu. Mesmo que quisesse não conseguiria dormir naquela casa mal-assombrada disfarçada de castelo encantado.
— Ah, então está bem... Eu sou Sophie, a cozinheira. Vim buscar as canecas que Micael trouxe. Nossa, que frio, não? A casa está gelada entre a cozinha e a sala — disse tudo isso enquanto cruzava a sala. Dirigiu-se à lareira, passando direto pela mesinha onde estava a caneca e estendeu as mãos sobre o calor do fogo. Vestia jeans escuro e um suéter branco de gola role, e tinha os cabelos loiros presos num rabo-de-cavalo.
— A propósito, seja bem-vinda — ela acrescentou com um sorriso inocente ao perceber que Lua a olhava fixamente.
— Espero que tenha feito uma boa viagem.
— Hum, sim, foi agradável.
— E você está em lua-de-mel, certo? — perguntou Sophie, enquanto se afastava com um suspiro para longe das chamas acolhedoras e recolhia a caneca.
— Sim, mas sozinha — respondeu Lua, sentindo seu sorriso desvanecer.
— Nossa! O casamento deu errado?
— Pode-se dizer que sim.
— Sinto muito. — E realmente demonstrava sentir. — E ainda por cima essa nevasca absurda...
— Eu estava tentando me convencer de que era tudo um pesadelo, quando você entrou.
— Pobrezinha! — Sophie sentou-se no sofá ao lado. — Ele feriu seu coração, não?
Aquela pergunta, feita por alguém que conhecia a menos de um minuto, deveria tê-la incomodado ou ao menos ter provocado alguma dor, mesmo que pequena. Em vez disso, encostou-se no sofá sentindo-se exausta.

— Machucou um pouco sim, mas só isso.
— Ótimo, então você poderá curtir sua viagem. Não precisa de homem para se divertir, — Sophie riu de si mesma. — É o que minha mãe sempre dizia a mim e a meus irmãos.
Lua surpreendeu-se de como se sentia à vontade com Sophie. Tinha família, amigos, e colegas de trabalho, mas em sua maioria homens. Nunca se sentira muito confortável naqueles "papos de garotas".
— Não sei o que me deu na cabeça para vir para cá, foi pura idiotice — comentou.
— Ah, mas eu garanto que você vai se divertir! E algum dia vai encontrar outro homem. Um melhor ainda!
Lua não conseguiu deixar de lembrar quantas vezes em sua vida já ouvira aquele comentário, mas preferiu perguntar:
— Quantos funcionários há aqui?
— Somos em Quato. Mel, Chay, Micael e eu.
— Você sabe onde está o gerente? — Lua aproveitou a oportunidade para perguntar. Quem sabe não conseguiria resolver o assunto das reservas?
— Chay? —  deu de ombros. — Não tenho muita certeza... Ele dificilmente fica até tarde. Ei, não gostaria de um banho de lama?
— Talvez outra hora. — Lua não conseguia se ver relaxando com nada parecido, não naquelas circunstâncias.
— E que tal aromaterapia? Nós usamos uns óleos diferentes, é uma delícia! Você pode nadar na piscina coberta, à luz de velas. Hum... eu posso lhe fazer um piquenique com lagosta quando a eletricidade voltar. E se você quiser, posso agendar um passeio de helicóptero ou qualquer outra coisa, quando as linhas telefônicas voltarem a funcionar. Mas por hora eu enchi a sala de jantar com velas, então não está escuro lá. Ah, tem comida lá, também.

— Comida? — Estava faminta. — Chay também está lá?
— Não sei... — respondeu Sophie.
— Por que não vi nenhum de vocês quando cheguei?
— Eu sinto muito por isso, mas uma boa refeição vai ajudá-la a apagar essa primeira má impressão. E amanhã tudo voltará ao normal, você vai ver.
A viagem era a menor das preocupações de Lua. Enfrentaria de bom grado outro vôo ruim, se pudesse apagar aquele dia inteiro de sua memória. Mas como não via nenhum gênio da lâmpada por perto, aceitou o convite de Sophie, que já estava abrindo a porta em direção à sala de jantar e mostrava-lhe o caminho. Espiou o corredor escuro, desconfiada, mas não se moveu.
— Vamos lá. — Sophie encorajou-a. — Eu encontrei o outro hóspede no caminho. Ele já está lá, esperando por você.
Lua sentiu o estômago dar um salto.
— Não acredito. — murmurou, contrariada.
Arthur estava na sala de jantar, sentado à uma mesa, que era maior do que seu apartamento inteiro. Olhou as vidraças que iam do chão ao teto e revelavam uma noite escura cujo único brilho vinha da neve branca que caía.

Enquanto se dirigia às escadas para voltar à suíte, uma mulher loira chamada Sophie surgira do nada e o levara até ali. Era bonita e tinha um sorriso doce, quase inocente, mas mesmo assim, nada nela mexeu tanto com ele quanto Lua mexera. Estava estranhamente fascinado por aquela mulher sexy e de língua afiada.
Talvez fosse pelo modo com que ela olhara para seu corpo nu no chuveiro, como uma estudante sedenta por conhecimento, e ao mesmo tempo como um bichinho assustado. Tudo o que queria agora era que ela o olhasse daquela forma novamente.
Para fugir desses pensamentos perturbadores, concentrou-se em Sophie, que estava limpa e arrumada, graciosa e cheirava a temperos e a ervas frescas. Ficara com água na boca só de ouvi-la prometer que traria comida.

Enquanto esperava, observou que Micel havia acendido uma infinidade de pequenas velas ao longo dos peitoris das janelas. A neve continuava a cair em suaves e hipnotizantes linhas brancas.
Ouviu o som de passos que depois se transformou no barulho agudo produzido por botas de saltos altíssimos, encharcadas pela água que tinham absorvido.

Quando Lua entrou no cômodo, ele quase perdeu o fôlego.
Os cabelos tinham secado e agora caíam em suaves ondas sobre os ombros. A maquiagem, se é que ela estivera usando alguma, tinha desaparecido. Era engraçado vê-la caminhando com o porte altivo de uma princesa, vestindo agasalho e botas encharcadas.

— Você está apitando — quebrou o silêncio.
Lua lançou-lhe um olhar frio e olhou à sua volta, admirando o teto majestoso da sala de jantar e do excelente trabalho de marcenaria nas janelas.
— E estou mal-vestida para esta sala. — completou ela.

Continua..

Creditos: UR

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